Agradeço à Rocco pela oportunidade de ler Os Gritos antes de tudo. Confesso que cheguei ao livro praticamente sem expectativas: julgando a linda capa feita pelo artista plástico Wagner Kuroiwa, esperava algo sobrenatural. Raramente leio sinopses e gosto de descobrir o que estou lendo no ato. A surpresa foi encontrar um thriller policial com pitadas de mistério, crítica institucional e um mergulho fundo na fragilidade humana.
Tokurō Nukui é uma figura central do mistério japonês — atual presidente da Associação de Escritores de Mistério do Japão e vencedor de prêmios como o Yamamoto Shūgorō. Os Gritos levou 30 anos para chegar ao Brasil e já é, por si só, um exemplar representativo do noir japonês.
Duas vozes, dois mundos
A narrativa é construída sobre dois pontos de vista paralelos. O primeiro é o do detetive Saeki, que investiga o desaparecimento e morte de crianças em Tóquio no início dos anos 1990. Por ele, o leitor acompanha o funcionamento da corporação policial japonesa com um realismo que impressiona — hierarquias, burocracias, pressões da mídia sobre as investigações. O segundo é Matsumoto, um homem desolado pelo luto da filha que encontra refúgio em uma neorreligião que mistura elementos evangélicos com ocultismos e referências à Cabala.
É na voz de Matsumoto que o livro mais engrena. A seita, os sephiroths, a manipulação de pessoas vulneráveis pelo consolo espiritual — tudo isso cria uma tensão genuína desde as primeiras páginas. A escrita flui, e a habilidade de Nukui é inegável.

O problema do ritmo
Até os 80% do livro, a narrativa de Saeki se mostrou a parte mais fraca para mim. O cotidiano da corporação é intencional e bem construído, mas para quem busca uma investigação mais clássica — ruas, pistas, confrontos — pode parecer distante. A lentidão é real: há trechos em que a leitura exige paciência antes de as coisas realmente engrenarem.
O plot twist, quando chega, não pegou com a força que poderia ter. Chega tarde demais — perto dos 90% — e o desfecho é seco, sem espaço para respirar. Prefiro obras que fechem suas janelas sem pressa, que deixem o leitor marinar nas conclusões. Aqui, a amarração é rápida demais para o peso que a história carrega.
O que salva e o que encanta
Apesar do ritmo irregular, Os Gritos funciona como um espelho da alma humana. O luto, a fragilidade, a busca por pertencimento em momentos de desespero — esses temas universais atravessam o livro inteiro e justificam sua longevidade no Japão. Os personagens secundários também têm peso: a família em crise de Saeki e os praticantes da seita ao redor de Matsumoto dão textura à trama sem parecer descartáveis.
A dualidade narrativa cria um jogo de gato e rato que se sustenta. Quando os dois pontos de vista finalmente se entrelaçam, há satisfação — mesmo que o impacto seja menor do que o esperado para leitores mais experientes no gênero.
Vale a leitura?
Se você curte noir japonês, luto bem escrito e crítica social embutida na ficção, Os Gritos entrega. A habilidade de Nukui está presente em cada página — o problema não é a escrita, é o equilíbrio entre os dois arcos. Quem busca uma investigação mais dinâmica pode se frustrar com o tempo gasto na burocracia policial. Mas quem se deixa levar pelo lado de Matsumoto encontrará uma das partes mais envolventes do livro.



