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Apesar de não ser bem divulgado e até esquecido, as mulheres japonesas também fizeram parte das guerras no Japão, sendo algumas líderes e outras defendendo suas comunidades. Essas mulheres eram chamadas de onna-bugeisha (“Mestre em Artes Marciais”), também conhecidas como onna-musha (“Guerreira”).

Quem eram as Onna-bugeisha?

Antes mesmo dos samurais surgirem como uma classe guerreira, as mulheres já aprendiam a dominar a naginata (bastão com uma lâmina), kaiken (pequena adaga) e a arte do tantojutsu (luta com pequenas adagas ou facas) para proteger suas comunidades, já que poucos ficavam nas comunidades por causa das batalhas dentro e fora do país.

As onna-bugeisha pertenciam ao bushi, uma classe nobre de guerreiros japoneses que já existia antes do termo samurai começar a ser usado. Entre os séculos XII e XIX, essas mulheres da alta classe eram treinadas na arte da guerra e usavam a naginata principalmente para a defesa. Caso suas comunidades fossem atacadas pelos inimigos, as onna-bugeisha lutavam até a morte.

Além disso, elas abriram escolas por todo o Japão para treinar mulheres jovens nas artes marciais e estratégia militar.

Naginata – A Arma das Mulheres

A principal arma das onna-bugeisha era a naginata, um tipo de bastão com uma lâmina curvada na ponta. Na Era Edo (1603 – 1868), a naginata se tornou um símbolo de status e geralmente fazia parte do dote das mulheres nobres. Mais tarde, na Era Meiji (1867 – 1912), ela se tornou popular nas artes marciais femininas e muitas escolas focadas na naginata foram criadas.

Excelentes para ataques a uma distância segura, as naginata pesam cerca de 650g e medem mais de 2 metros, e por conta do seu comprimento e leveza, ela era muito utilizada para compensar a força e o tamanho das mulheres contra os homens em batalha.

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Mulheres com Naginata na Cidade de Ferro de Princesa Mononoke

A Lenda da Imperatriz Jingu

Uma das primeiras onna-bugeisha da história foi a Imperatriz Jingu (169 – 269), que após a morte de seu marido, o Imperador Chuai, tomou o trono e liderou pessoalmente uma expedição para o oeste, atual Coréia, e saiu vitoriosa. De acordo com registros históricos, Jingu era uma grande guerreira que desafiava as regras da sociedade, lutando até mesmo grávida e usando roupas masculinas. Ela governou o Japão por 70 anos até sua morte aos 100 anos.

Além disso, dizem que ela usou suas habilidades para promover as mudanças econômicas e sociais no começo do Período Yamato no Japão. Apesar de sua existência ser controversa, onde os historiadores não têm certeza se ela é uma lenda ou não, ela foi um exemplo das onna-musha na cultura japonesa e chegou a aparecer nas notas de dinheiro japonesas em 1881.

Imperatriz Jingu (créditos universidade de waseda)

Hojo Masako

A esposa do primeiro shogun (comandante do exército) da Era Kamakura (1185 – 1333), Hojo Masasko foi a primeira onna-bugeisha a ser uma peça importante na política. Após a morte de seu marido, Masako se tornou uma freira budista, mas continuou a se envolver na política. Ela teve um papel importante moldando a carreira de seus dois filhos, Minamoto no Yoriie e Minamoto no Sanetomo, que se tornaram o segundo e terceiro shogun.

Sob seu governo, a corte permitiu que as mulheres tivessem direitos iguais de herança e ganhassem um papel doméstico, controlando as finanças, sustentando suas casas, tendo empregados e criando seus filhos para se tornarem samurais.

Hojo Masako Carregando uma Naginata por Adachi Ginko (domínio público)

Tomoe Gozen

Durante a Guerra Genpei (1180-1185) entre os clãs Minamoto e Taira, surgiu uma das maiores guerreiras do Japão, Tomoe Gozen, que servia a Minamoto no Yoshinaka do Clã Minamoto.

Na história do século XIV, “O Conto de Heike”, ela é descrita como uma grande arqueira e espadachim que valia por 100 guerreiros e que estava sempre pronta para enfrentar deuses e demônios, fosse a pé ou a cavalo. Ela ficou conhecida por ter sido uma das poucas guerreiras que ficavam na linha de ataque, conhecidas como onna-musha, já que a defesa era mais comum para as onna-bugeisha.

No campo de batalha, ela era respeitada e tinha a confiança de suas tropas. Em 1184, ela liderou mais de 300 samurais em uma batalha terrível contra 2000 samurais do Clã Taiga e foi uma das 5 sobreviventes do confronto. Já na Batalha de Awazu, ela derrotou o líder do Clã Musashi, decapitando-o e guardando sua cabeça como troféu. Sua reputação era tão alta que seu líder, Kiso no Yoshinaka, a considerava a melhor general do Japão.

Além disso, Tomoe teve grande impacto na classe bushi e nas escolas de naginata, e suas ações renderam inspirações para peças de teatro, como “Tomoe no Monogatari” (A História de Tomoe) e vários ukiyo-e (tipo de xilogravura).

Tomoe Gozen na Batalha de Awazu por Utagawa Yoshikazu (domínio público)

Joshitai – O Exército Feminino

Durante a Batalha de Aizu em 1868, uma guerreira de 21 anos chamada Nakano Takeko liderou um grupo de guerreiras chamadas Joshitai (“Exército Feminino”) contra as forças do imperador. Filha de um oficial de alta patente da corte imperial, Takeko recebeu uma ótima educação e aprendeu artes marciais e como usar a naginata. Sob seu comando, as Joshitai lutaram ao lado dos samurais, matando muitos inimigos em combate. Hoje em dia, ela tem uma estátua no Templo Hokai-ji em Aizubange, na província de Fukushima.

Ilustração Mostrando uma mulher acompanhando os homens em uma batalha (créditos Lepidlizard)

Outras Mulheres nos Campos de Batalha do Japão

Durante a Era Sengoku, há vários relatos de mulheres lutando ativamente nos campos de batalha, como o caso de Myorin que inspirou o povo a lutar contra 3000 soldados do Clã Shimazu; Kaihime que lutou contra o Clã Toyotomi no cerco de Oshi (1590); Onamihime que se tornou a líder representativa do Clã Nikaido e lutou em várias batalhas contra seu sobrinho Date Masamune; Akai Teruko, que ficou famosa por lutar até os 76 anos e ficou conhecida como “A Mulher Mais Forte do Período dos Reinos em Guerra”; e Tsuruhime que ganhou o título de “Joana d’Arc do Japão” e se estabeleceu como uma das guerreiras mais conhecidas da história japonesa.

Durante este período em que os clãs batalhavam por território, as mulheres nobres e até mesmo camponesas de seitas budistas entraram nos campos de batalha. Elas lutaram até a unificação do Japão por Toyotomi Hideyoshi e, após sua morte, sua concubina Yodo assumiu a liderança do Clã Toyotomi.

Na Era Sengoku (1467 – 1615), a esposa do shogun Ashikaga Yoshimasa, Hino Tomiko, foi contra a ideia do marido de abdicar seu cargo para seu irmão mais novo, e por conta disso Tomiko buscou o apoio político e militar para governar como regente até o nascimento de seu filho. Ela ganhou o apoio de líderes de clãs de samurais poderosos e foi à guerra contra Yoshimasa e seus apoiadores.

Em 1580, uma mulher do clã Bessho se juntou a uma rebelião contra Toyotomi Hideyoshi durante o cerco de Miki. Seu marido Bessho Yoshichika foi um dos líderes da rebelião e desempenhou um papel fundamental durante o cerco, aliando-se ao Clã Mori.

No século XVI, já havia unidades consistindo apenas de mulheres, como foi o caso de Ikeda Sen, que liderou 200 mulheres mosqueteiras (Teppo) nas batalhas de Shizugatake e Komaki-Nagakute.

Outras guerreiras notáveis incluem Otazu no Kata, que comandou mais 300 soldados para defender o Castelo de Hikuma contra as tropas de Tokugawa Ieyasu e lutou até o final armada de uma naginata ao lado de outras 18 mulheres armadas; Ueno Tsuruhime, que liderou 34 mulheres em uma missão suicida contra o exército Mori; e Tachibana Ginchiyo, a líder do Clã Tachibana que lutou com suas tropas femininas na Campanha de Kyushu (1586) e no Cerco de Yanagawa (1600), e que ainda organizou uma resistência formada por freiras budistas contra o avanço do Exército Oriental.

Retrato de Komatsuhime

Kunoichi – As Ninjas Femininas

No século XVI, começaram a surgir as mulheres ninjas, chamadas de kunoichi, que eram assassinas, espiãs e mensageiras treinadas nas artes marciais do taijutsu, kenjutsu e ninjutsu.

Um exemplo histórico é Mochizuki Chiyome, uma poeta e nobre que foi contratada por um daimyo para criar um grupo secreto de espionagem composto somente por mulheres. Chiyome recrutou prostitutas e mulheres rebeldes, e as treinou para se tornarem informantes, mensageiras e assassinas. Com o tempo, sua rede de kunoichi aprendeu a se disfarçar como sacerdotisas, monjas e geishas, para que elas pudessem andar livremente e ter acesso a seus alvos. Sua rede chegou a ter centenas de agentes que serviam o Clã Takeda.

O Fim das Onna-bugeisha

No início do século XVII, houve uma grande mudança no papel da mulher no Japão. Como os samurais pararam de lutar e viraram burocratas, a função das onna-bugeisha também mudou. Muitos samurais começaram a ver as mulheres como simples geradoras de filhos que não podiam ir para a guerra e deviam ser passivas e obedientes.

Viajar durante a Era Edo também se tornou muito difícil para as mulheres por causa das restrições impostas. Elas só podiam viajar se estivessem acompanhadas por um homem e se tivessem permissão especial e, além disso, precisavam passar por inspeções abusivas nos pontos de controle.

O último registro das mulheres na classe samurai foi na Rebelião de Satsuma em 1877, onde muitas mulheres lutaram para defender a cidade de Kagoshima. A rebelião também acabou com a classe samurai por causa da criação do novo Exército Imperial Japonês.

A Guerreira Hangaku Gozen por Yoshitoshi (créditos Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos)

Legado

No Japão, Tomoe Gozen e Nakano Takeko influenciaram as escolas de naginata com suas técnicas. Compostas por homens e mulheres, essas escolas costumam reverenciar o onna-musha. Além disso, durante o festival anual de outono de Aizu, mulheres vestindo o hakama e usando bandanas brancas participam da procissão para comemorar os feitos de Nakano e do Joshitai.

Outros exemplos importantes são Yamakawa Futaba e Niijima Yae, que se tornaram símbolos da luta pelos direitos das mulheres japonesas. Algumas onna-musha ainda se tornaram ícones de uma cidade ou prefeitura, como Ii Naotora e Tachibana Ginchiyo, que são frequentemente celebradas nos festivais das cidades Hamamatsu e Yanagawa, respectivamente. Já a freira budista e guerreira Myorin é celebrada na região de Tsurusaki, na cidade de Oita, enquanto Ohori Tsuruhime é a protagonista de vários festivais e do folclore local na ilha de Omishima.

Setsuna de Yashahime usa uma naginata

Hoje em dia, várias outras mulheres da classe samurai ainda são celebradas através da cultura pop, no comércio e no folclore.

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