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O Morro dos Ventos Uivantes | Gótico, Sobrenatural e Folclore na Obra de Emily Brontë

Emily Brontë criou, em O Morro dos Ventos Uivantes, muito mais do que um romance de amor. A obra é um mergulho nas tradições góticas, nas crenças folclóricas de Yorkshire e em um sobrenatural que nunca se resolve — e é justamente essa ambiguidade que a torna imortal.

Quando O Morro dos Ventos Uivantes foi publicado, em 1847, o romance gótico já tinha seus clichês bem estabelecidos: castelos medievais, donzelas em perigo, vilões de capa e punhal. Emily Brontë ignorou tudo isso — e ao ignorar, reinventou o gênero.

O horror que ela construiu não habita ruínas arquitetônicas. Ele mora nos “cantos escuros da mente humana”, como a crítica literária batizou o que ficou conhecido como Gótico Psicológico. As duas casas centrais da narrativa — Wuthering Heights e Thrushcross Grange — não são meros cenários. São extensões das almas que as habitam e já falei isso nos reviews do LIVRO e do FILME da Margot Robbie.

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Representação da casa no Morro dos Ventos Uivantes

Wuthering Heights é rústica, tempestuosa, “endemoninhada”. O próprio nome já entrega tudo: wuthering é uma palavra dialetal de Yorkshire para descrever o tempo feroz, os ventos que uivam sem piedade. A casa não é um lugar passivo. Ela respira, late, sussurra. Seus uivos e ventos cortantes, os raios que a açoitam nas noites de tempestade, constroem uma atmosfera de coisa viva — uma entidade que compartilha o estado emocional dos que vivem entre suas paredes.

Thrushcross Grange, por outro lado, representa o civilizado, o refinado, o mundo burguês vitoriano com seus tapetes e suas convenções. O conflito entre as duas propriedades não é apenas geográfico nem social: é a batalha entre o instinto e a norma, entre a paixão selvagem e o decoro sufocante.

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Representação da Granja Thrushcross

Catherine sente-se prisioneira em Thrushcross Grange — ela chama o lugar de “abismo”. Heathcliff, na segunda geração, literalmente tranca a jovem Cathy e Hareton em Wuthering Heights. O aprisionamento, tema clássico do gótico, é aqui transposto para a esfera doméstica e sentimental.

Heathcliff: Demônio, Sátiro ou Changeling?

Nenhuma discussão sobre o sobrenatural em O Morro dos Ventos Uivantes consegue escapar de Heathcliff. Ele é o núcleo gravitacional de toda a estranheza que a obra emana — e sua origem deliberadamente obscura é a fonte de grande parte do fascínio que exerce há quase dois séculos.

O próprio Mr. Earnshaw o traz de Liverpool como um presente misterioso, sem nome, sem família, sem passado verificável. Surge do nada. E desde o início, os outros personagens o percebem como algo que não pertence inteiramente ao mundo humano.

Os rótulos que a narrativa cola nele são reveladores: “demônio”, “filhote de Satanás”, “vampiro”, “ghoul”. Não são insultos casuais — são categorias do imaginário folclórico e religioso. Personagens chamam Heathcliff de imp of Satan, associando-o diretamente à tradição popular que demoniza o estranho, o órfão sem origem conhecida, aquele que não se encaixa em nenhuma genealogia reconhecível.

Uma das interpretações mais fascinantes o aproxima da figura do Changeling — a criança feérica que, segundo o folclore celta irlandês e da Cornualha, era trocada por um bebê humano. O Changeling não tem raízes, semeia o caos onde é inserido, e carrega consigo algo irremediavelmente alienígena. Heathcliff cumpre esse roteiro com precisão perturbadora: surge do nada, desestrutura uma família inteira e funciona como um elemento de desordem que a lógica social não consegue conter.

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Figura do changeling / Imagem Divulgação

Mas há outras dimensões na sua figura que merecem atenção. Há algo do Sátiro em Heathcliff — a criatura mitológica que habita as fronteiras entre o humano e o animal, entre a civilização e o mundo selvagem. Sua conexão com as charnecas, seu corpo que parece feito do mesmo material que os ventos e as rochas de Yorkshire, seu desprezo total pelas convenções sociais e morais: tudo isso o aproxima de uma força da natureza mais do que de um homem. Ele não apenas frequenta o espaço selvagem. Ele é, em alguma medida, uma manifestação desse espaço.

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Sátiro / Imagem Divulgação

E então há a figura do Diabo. Não o demônio de chifres e tridente do imaginário popular, mas o Adversário da tradição judaico-cristã: aquele que deseja com uma intensidade que transgride todos os limites, que é capaz de destruir o que ama porque o amor e a destruição são, para ele, a mesma coisa. Heathcliff é movido por uma paixão que não distingue entre devotar-se e devorar. Ele personifica o mal moral não porque seja simplesmente cruel, mas porque sua obsessão por Catherine o coloca além de qualquer sistema ético convencional.

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Ao mesmo tempo, Brontë nos lembra que Heathcliff também foi vítima — da crueldade de Hindley, do preconceito de classe, da traição de Catherine ao casamento com Edgar Linton. Essa ambiguidade é parte da genialidade da obra: ele é agente e vítima de atos terríveis, anti-herói byroniano por excelência, e é justamente por isso que não conseguimos simplesmente descartá-lo como um vilão.

Nelly Dean: A Narradora que Pode Ser a Vilã

Entre todas as personagens de O Morro dos Ventos Uivantes, Nelly Dean ocupa uma posição peculiar e frequentemente subestimada. Ela é a narradora central da história — é ela quem conta tudo ao visitante Lockwood, e é pela sua voz que conhecemos os acontecimentos de décadas passadas.

Mas Nelly não é uma observadora neutra. Ela está presente em praticamente todos os momentos críticos da narrativa: mortes, crises, rupturas. Pessoas morrem ao seu redor com uma frequência que vai além da coincidência narrativa. E suas intervenções — ora retendo informações, ora tomando decisões no lugar dos outros — moldam os destinos dos personagens de maneiras que ela jamais reconhece abertamente.

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Hong Chau como Nelly Dean em O Morro dos Ventos Uivantes / Imagem Divulgação

Há uma corrente crítica que enxerga (eu mesmo) em Nelly algo próximo de uma bruxa — não no sentido de rituais e poções, mas no sentido folclórico mais profundo: a mulher que sabe mais do que deveria, que está sempre nos bastidores dos eventos mais sombrios, que exerce um poder velado sobre os outros ao mesmo tempo em que fingi ser apenas uma serva. James Hafley, declarou em 1950-60 sobre Nelly ser a verdadeira vilã do romance.

Ela conhece os segredos de todos, manipula situações com a sabedoria aparentemente inocente de quem “só está tentando ajudar”, e sua lealdade nunca é completamente clara. Para quem Nelly realmente trabalha? O que ela omite, e por quê? Essas perguntas não têm resposta definitiva no texto — e essa ambiguidade é, ela mesma, uma característica do sobrenatural brontëano. Nelly é uma vilã em potencial que o romance se recusa a nomear como tal.

As Charnecas de Yorkshire: Uma Paisagem que É Personagem

Se Heathcliff é a encarnação do poder selvagem e indomável, as charnecas de Yorkshire são o território onde esse poder encontra sua expressão mais pura. Em O Morro dos Ventos Uivantes, as moors não são um cenário de fundo — elas são uma presença ativa, quase uma personagem com agência própria.

Míticas, soturnas, enigmáticas e nebulosas: as charnecas funcionam como um espaço liminar, uma zona de fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre a civilização e o caos. É nelas que Catherine e Heathcliff constroem sua infância de liberdade selvagem. É nelas que os fantasmas são vistos vagando após as mortes dos protagonistas. É nelas que a lógica do mundo ordenado e burguês simplesmente não se aplica.

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Para você se situar, a obra se passa em uma região de charneca.

A tradição folclórica do norte rural da Inglaterra sempre atribuiu às charnecas um estatuto especial: lugares onde espíritos errantes podem ser encontrados, onde a separação entre o natural e o sobrenatural se dissolve. Emily Brontë, criada em Haworth, no coração desse território, respirou essas histórias desde a infância. A criada da família Brontë, Tabby Aykroyd, era conhecedora das tradições orais locais — e sua influência na obra de Emily é significativa.

As tempestades que assolam as charnecas não são apenas fenômenos meteorológicos no romance. Elas acompanham os momentos de maior intensidade dramática — mortes, rupturas, revelações. Esse uso do tempo como presságio é um elemento clássico do weather lore, a superstição meteorológica da tradição rural inglesa, que lê o clima como sinal do mundo espiritual. O próprio título da obra, com o wuthering que nomeia o vento feroz, faz desta ligação entre natureza e assombro o coração semântico do livro.

O Sobrenatural que Nunca Se Resolve

Em muitos romances góticos do século XIX, o sobrenatural acaba sendo explicado: era um disfarce, era um sonho, era uma alucinação. Emily Brontë recusa esse conforto.

A cena mais famosa e mais perturbadora do livro é a que abre a narrativa: o visitante Lockwood, dormindo no quarto de Catherine, acorda com uma mão gélida de criança tentando entrar pela janela, chamando por Heathcliff. O próprio Lockwood narra o episódio de modo que nunca saberemos ao certo se foi um pesadelo ou uma aparição real. Brontë constrói a ambiguidade com precisão cirúrgica — e não a resolve. Não resolveu pra mim, no caso.

Isso coloca o romance em território que o teórico Tzvetan Todorov chamaria de fantástico: o espaço onde o leitor hesita entre uma explicação natural e uma sobrenatural, sem que o texto ofereça resolução definitiva. Os fantasmas de O Morro dos Ventos Uivantes são psicológicos e reais ao mesmo tempo, e é justamente essa indeterminação que os torna perturbadores.

A morte de Heathcliff replica essa ambiguidade. Ele para de comer, parece ver algo que os outros não veem — o espírito de Catherine, sugerem alguns personagens —, e morre com um sorriso macabro e os olhos que se recusam a fechar. Há a sugestão de que ele mesmo abriu a janela para permitir a entrada do fantasma da amada. A união que foi negada em vida se cumpriria, então, na morte?

fantasma catherine wuthering heights

O romance não responde. Ele encerra com relatos de aldeões que juram ter visto os dois fantasmas vagando juntos pelos morros em noites de tempestade. Esses relatos não são apresentados como crença ingênua: eles são a última palavra da narrativa, e Brontë os trata com a seriedade das histórias orais que circulavam pelas vilas de Yorkshire há gerações.

O Folclore Vivo de Yorkshire: Ponden Kirk e os Changelings

A influência do folclore em O Morro dos Ventos Uivantes vai além da atmosfera. Há referências a lendas específicas e identificáveis — e a mais impressionante delas é a do Penistone Crag, o Penedo de Penistone da narrativa.

Emily Brontë baseou esse local na lenda real de Ponden Kirk, uma formação rochosa local que carregava uma crença popular específica: casais que rastejassem juntos por uma fenda na pedra se casariam em um ano; se a mulher passasse pela fenda sem o homem, morreria em breve.

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Esse Ponden Kirk me lembra uma cena de Your Name

 

No romance, Catherine rasteja por Ponden Kirk com Heathcliff na infância. Mas é com Edgar Linton que ela se casa. Dentro da lógica folclórica que Brontë tece na obra, esse desvio do rito selou seu destino trágico. A pedra não perdoa a quebra do pacto.

Joseph e a Religiosidade Popular: Entre o Metodismo e a Demonologia

O servo Joseph é um dos personagens mais ignorados da obra e um dos mais ricos para entender a camada folclórica do romance. Ele encarna uma religiosidade rural rígida, ligada ao metodismo de Yorkshire, mas profundamente atravessada pela superstição.

Para Joseph, Heathcliff é literalmente uma encarnação demoníaca — não como metáfora, mas como convicção teológica popular. Suas interpretações do que acontece em Wuthering Heights são sempre filtradas por uma visão de mundo onde demônios, castigos divinos e presságios são parte do cotidiano. Seu dialeto cerrado, sua linguagem bíblica e sua paranoia religiosa posicionam o romance dentro de uma tradição de cristianismo popular onde o sobrenatural nunca está longe.

O Duplo: Catherine e Heathcliff Como Uma Só Entidade

Uma das declarações mais citadas de toda a literatura inglesa está em O Morro dos Ventos Uivantes: “Eu sou Heathcliff.” Com essa afirmação, Catherine não apenas expressa amor — ela dissolve a fronteira entre duas identidades.

Catherine e Heathcliff formam o que a crítica gótica chama de Doppelgänger, o duplo: duas manifestações de uma mesma essência, que se reconhecem mutuamente como um espelho. Essa fusão vai além do romance convencional. Ela sugere uma forma de existência que ultrapassa os limites do corpo e da morte — e é por isso que a morte de Catherine não encerra a história, mas a assombra até a última página.

Se eles são dois aspectos de uma única entidade, então a morte de um é a mutilação do outro. E a busca de Heathcliff, por décadas, não é simplesmente por vingança ou por poder: é pela restauração de uma inteireza que foi violentamente partida.

Por Que O Morro dos Ventos Uivantes Ainda Nos Assombra

Quase 180 anos depois de sua publicação, O Morro dos Ventos Uivantes continua sendo um dos romances mais perturbadores da literatura ocidental. Não porque tenha monstros ou sustos — mas porque Emily Brontë entendeu que o horror mais duradouro é aquele que não se deixa resolver.

Os fantasmas da obra não são explicados. Heathcliff não é categorizado. As charnecas não são domadas. Nelly não é julgada. A pedra de Ponden Kirk não solta sua vítima.

Brontë fundiu o gótico, o sobrenatural e o folclore como estrutura que sustentam a lógica emocional e narrativa da obra. Sem eles, O Morro dos Ventos Uivantes seria apenas um romance sobre duas pessoas que não conseguiram ficar juntas. Com eles, é uma investigação sobre o que acontece quando a paixão humana encontra as forças que governam o mundo além do humano — e recusa-se a recuar. Recusa-se a recusar!

catherine heathcliff
Catherine & Heathcliff / Não achei o crédito dessa obra incrível!

E é por isso que, em noites de tempestade, ainda parece plausível que dois vultos caminhem juntos pelas charnecas de Yorkshire.

BELLAN
BELLAN
O #BELLAN é um nerd assíduo e extremamente sistemático com o que assiste ou lê; ele vai querer terminar mesmo sendo a pior coisa do mundo. Bizarrices, experimentalismo e obras soturnas, é com ele mesmo.

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