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O American Dream é vendido para o povo estadunidense e estrangeiros como algo grandioso e uma certeza que todos buscam nas suas vidas, preso a uma economia a base de crédito, a distopia do ethos não é tão escancarada nos cinemas, entre esses poucos filmes, Nomadland explora o fracasso da economia em uma zona rural de Nevada, a qual seus tantos moradores seguem rumos diferentes, enquanto nossa protagonista parte para um estilo de vida nômade para que possa sobreviver na grande Terra do Tio Sam.

Entre muitas premiações sem ser BAFTA, Globo de Ouro e Oscar, Nomadland ganhou 28 prêmios de 40 indicações, provável chance desse filme ser amplo favorito nas principais premiações de 2021, principalmente por ser dentro do filtro que a academia mais idolatra: desenvolve o drama de famílias despejadas de suas casas que nunca foram delas, por conflitos econômicos de empresários e outros meios que possam ruir e acabar com todas as famílias que moram no meio do deserto. Por se tratar de um terreno na mão de engravatados, a única coisa que não existe ali é certeza de casa própria, com isso muitos são despejados e tendem a viver como nômades modernos, morando em vans e se sustentando por empregos pequenos.

Em Nomadland, vemos a vida de Fern (Frances McDormand), despejada de sua casa e forçada a viver como nômade, ao decorrer da trama personagem conhece pessoas diferentes, vê um pouco de tudo em suas viagens e entre outros pontos positivos que um nômade presencia em sua vida, dentro daquele drama do despejado que vive em sua van e precisa caçar o primeiro emprego que surgir em sua frente, seja ele embaladora de pacotes, chapeira de fast food rodoviário ou zeladora de parque.

Aqui temos um filme que explora todo o arco de Fern em sua difícil trajetória de vida, pois inicialmente ela se mostra resistente a ser uma nômade, o desenvolvimento da trama faz a personagem passar por uma mudança de perspectiva, fazendo dessa mudança a nossa também, Nomadland é uma forma de desconstrução de pré-conceitos sobre os nômades modernos que muitos ainda têm sobre o assunto, rotulados como vagabundos ou desocupados, por não conhecer a história de cada um, o primeiro rótulo é dado pela opinião prévia que temos a ver todo aquele mundo decadente.

Há vários elementos que transformam Nomadland em um filme muito triste, começando pela fotografia, em alguns momentos muito escura, e na maioria das vezes desbotada, sempre mostrando a decadência daquele lugar, a vila de nômades não é exatamente um lugar onde as pessoas escolheram viver, foram forçadas a seguir esse caminho devido a todo conflito econômico.

Junto a fotografia, temos a melancólica sinfonia de Ludovico Einaudi, um gênio que tende a ser bem repetitivo em suas composições, mas que consegue te imergir em muitas de suas músicas, em Nomadland faz com que toda aquela melancolia seja mais elevada, fazendo dele em base com a trama algo bem pesado e reflexivo, mas a carga emocional do filme é toda transmitida pela atriz McDormand. Em todo momento se mostra serena, a dificuldade e melancolia extrapolada em todo seu redor e ela se mantém firme, que não deixa de ser uma mensagem importante, nos momentos mais difíceis da vida é que você precisa se mostrar resistente, no filme ela começou a se tornar perto de alguém que aceitou tudo aquilo e apenas sobreviveu, passando um ar de comodismo, mas fora estávamos nós assistido tudo aquilo, que parecia tudo uma porcaria de vida, uma lição aprendida na base da surra indireta. O ser humano adora julgar a vida alheia sem mesmo saber se a pessoas ali se incomoda com tudo aquilo, às vezes ela quer aquilo e você não sabe, e no fim só palpita sobre o nômade.

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A diretora Chloé Zhao têm um portfólio curto, com Domando o Destino de 2017 e Songs My Brothers Taught Me de 2015, Nomadland é o terceiro filme o qual ela se envolveu totalmente na produção. O próximo será Eternos, o que mostra que seu nome está enfim em alta nos holofotes da indústria dos blockbusters – esperamos que seja positivamente, seja ele nos filmes de Oscar ou nos de herói (ou nos dois, quem sabe).

Nomadland se coloca em um patamar dos grandes filmes sobre a realidade estadunidense e das melhores obras primas do cinema, sendo amplo favorito para as principais premiações, Chloé Zhao pode ser a única possível a bater de frente com Spike Lee nas categorias de Melhor Diretor. Que seja dita a verdade não importa quem ganhar, será merecido, esse filme escacara uma realidade que poucos não enxergam pela ilusão vendida do American Dream, e que como todo bom sonho tende a sumir quando acordamos para a vida.

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