Honda-san é o esqueleto mais carismático desde Jack Skeleton ou Papyrus, mesmo sem músculos no rosto. Sua especialidade? Aguentar aos trancos e barrancos os “ossos do ofício” de ser funcionário de uma livraria (com o perdão do trocadilho).

Com apenas dez minutos de episódio, pudemos saber muito da rotina árdua do último elo, o ponto final do mercado editorial: os livreiros.

Aos colegas de hábito

Caro leitor ou cara leitora, se você também tem o hábito de fazer das livrarias o seu segundo lar, este anime diz muita coisa para nós. E também sobre nós. Vendo as coisas do ponto de vista do Honda, os clientes e demais visitantes de uma livraria ganham uma outra luz.

Não é mais um Fulano que está ali folheando um livro ou um mangá, mas alguém que tem que ser abordado e não de qualquer jeito. Tentar achar o gosto da pessoa e saber quando e como chegar na pessoa, ou se você simplesmente deve deixá-la em paz, essas coisas já tensas por si só para alguém inseguro e ansioso como o nosso amigo esqueleto. E isso é só a ponta do iceberg.

Para os livreiros

Esse é sem sombra de dúvida o público alvo de Honda-san. O protagonista trabalha em uma livraria de grande porte no Japão, uma Saraiva ou Travessa da vida. Seus colegas de trabalho estão lá, modificados todos de uma maneira muito peculiar e que provavelmente só devem fazer sentido para o próprio autor: eles são todos humanos, mas um tem uma cabeça de coelho, outro é um saco de papel, outra tem um elmo e ora, por que não, temos que até mesmo uma máscara de corvo.

Todos esses funcionários peculiares lidam com humanos normais, sem necessidade de alterações, mas não menos peculiares por isso. Para começo de espanto, temos fujoshis para dar e vender aos surtos e berros tentando achar o seu BL favorito. Temos estrangeiros com dificuldades de comunicação ou entusiasmados até demais com a cultura japonesa. Diabos, tem até um brasileiro! Um brasileiro dá as caras nesse anime (“Konichiwa, San Paoro, San Paoro…”). Honda o reconhece como um paulista porque no Japão, o Brasil se resume a São Paulo e ponto final. Mas se me permitem, aquele brasileiro é um pouco vívido demais para ser paulista. Perguntem só a Nelson Rodrigues qual era a pior forma de solidão para ele.

Temos também otakus furiosos porque o seu mangá ou sua novel que pretendiam comprar já esgotou. E essa fúria é descontada aonde? Sim, nos miseráveis que não podem perder a cordialidade com o cliente. Por isso tanta bebedeira por lá depois de um dia de trabalho, pois só o álcool salva. Nomikai, banzai!

Gaikotsu Shotenin Honda-san
Gaikotsu Shotenin Honda-san (Imagem Divulgação)

Quando se trabalha com o que ama

Conheço um ou outro que trabalha em livrarias que confirma uma coisa ou outra do anime. Principalmente a correria que é apresentada no segundo episódio, um dos momentos mais engraçados. Não se acha o livro em lugar algum, tem que estocar de novo, tem que ligar pra editora pra pedir mais cópias, tem que fazer isso ou aquilo. É correria que não acaba mais.

Mas nem tudo são espinhos. Sim, trabalhar numa livraria é osso duro de roer (me perdoem mais uma vez o trocadilho), mas o anime também mostra que no meio de muito cliente maluco e muito cliente babaca, existem verdadeiros anjos na terra que conseguem te repor as energias e te ajudam a lembrar o porquê de você ter escolhido um emprego desses em primeiro lugar: porque você provavelmente ama livros.

Honda-san pode ter um dia a dia penoso, quase sem tempo para sua própria vida. Pouco é mostrado de sua vida, salvo quando ele vai dormir para aguentar mais um dia de trabalho. Como tantos e tantos japoneses, nosso livreiro vive para trabalhar e não parece muito preocupado em trabalhar para viver. Mas isso não parece o incomodar tanto. É um trabalho árduo, mas é o seu trabalho, esse mesmo que dá as mesmas histórias que ganhamos a oportunidade de ver de perto. E são essas histórias cômicas e tragicômicas que definem a vida de nosso livreiro esquelético, Honda-san.

Gaikotsu Shotenin Honda-san
Gaikotsu Shotenin Honda-san (Imagem Divulgação)

Conslusão

A maior vantagem de um anime num formato como o de Honda-san é que você não precisa dar muitas voltas e pode tranquilamente ir direto ao ponto. Já é esperado de você algo curto, dez minutos. Nesse tempo uma boa ideia pode ser bem executada e ainda dar espaço para ótimas piadas e referências descaradas a várias obras e produtoras. Não há nada que supere o show de esculachos desferidos como uma metralhadora de socos contra várias editoras de mangá, como numa catarse coletiva: de Honda-san e dos “n” leitores japoneses que sabem bem do que é que ele está falando.

Mesmo nós, público brasileiro, não vivendo a realidade do mundo editorial japonês, há um chão comum para todos nós aproveitarmos a excelente comédia de Gaikotsu Shotenin Honda-san. Pode ser que a animação simplista desagrade quem não consiga aceitar o seu estilo, mas esse “lado ruim” do anime é tão subjetivo que pode ser até descartável. São apenas doze curtos episódios. Pois vale e muito a pena tirar uma tarde de domingo para uma maratona, o anime merece!

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