Lembro que o primeiro volume de Eureka Seven me acompanhou em uma viagem para a casa dos meu avós, no interior, na época jovem e imbecil – como era de se esperar.

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Não cheguei nem próximo de absorver a obra com sua totalidade, talvez nem hoje após uma releitura eu o tenha feito, mas de fato, pós essa nova passagem pela obra adaptada da animação da BONES, de Jinsei Kataoka (roteiro) e Kazuma Kondou (arte), tenho outra interpretação: robôs gigantes, seres não humanos, amor e mais robôs gigantes.

*Lembrando que essa postagem é focada única e exclusivamente no mangá que é posterior ao anime, ou seja nesse caso o mangá é a adaptação, não o contrário.

Uma breve reflexão sobre camadas

Eureka Seven, caso você não tenha se achado ainda, fala sobre robôs gigantes surfando no ar, pilotos terroristas, combates, manobras aéreas, lasers, aquelas cenas que toda obra desse gênero tem, porém, partindo do princípio apresentado pelo Ogro da DreamWorks: “Cebolas tem camadas, ogros também tem camadas”.

Sei muito bem que citar um filme de animação, como inicio de argumentação, talvez enfraqueça a mesma, mas no auge do meu “vocabulário referencial”, tal frase é a mais próxima da definição que quero aplicar a essa obra, afinal, de ogros a cebolas, tudo tem camadas, posso concluir dessa frase então que tudo ao meu redor pode ser mais do que aparenta ser, incluindo tal mangá, que também tem inúmeras camadas, que podem e devem ser exploradas.

Camadas essas que talvez não sejam facilmente perceptíveis a um olhar neutro ou sem sede de querer mais, mas que com certeza são encontradas e apreciadas por aqueles que são conhecedores das mesmas, que nos cercam e influenciam nossas percepções de mundo, como um todo.

O amor que transforma

Nossos sentimentos ao serem expostos a uma análise mais profunda, revelam – as dita cujas – camadas mais profundas do que concebemos como “ser humano”, e por mais que você não goste de uma ideia que vá contra as suas, somente por existir, o amor como conhecemos hoje tem tantos significados quanto franquias de fastfood em uma capital. Por mais que ainda resista aquela ideia de amor universal e lindo, é hipocrisia pensar que o amor como fruto de algo em constante mudança, e com tantas camadas como o ser humano, fosse imutável.

Eureka Seven trabalha muito bem isso, às vezes de forma não muito sútil, o que pode incomodar alguns leitores, mas na maioria das vezes essas passagens tem toda uma construção prévia que acaba por justificar tal apelo, ou mesmo tal questionamento fica nas entrelinhas, em algum dialogo, em alguma pergunta sem resposta e/ou em páginas sem diálogos.

Eureka Seven, de forma gostosa de se acompanhar, graças ao roteiro amarrado e os traços bem característicos do artista, está o tempo todo nos convidando para uma nova interpretação de amor, e também do que pode ou não ser amado.

O amor pode ser a ponte, a resposta, o combustível para suas ações, o amor pode ser tudo isso e muito mais, como o próprio mangá deixa bem claro.

O preconceito que destrói

Da mesma forma que o amor é uma ponte, o preconceito pode ser colocado como uma bomba indo em direção à ponte, já sem muita chance de escapar, preconceito esse que se faz muito presente hoje na nossa sociedade e que sem nenhuma dúvida deve ser evitado e extinguido se buscamos uma real evolução enquanto interagimos com nossos semelhantes.

Na ideia de “quase sutileza” ao falar sobre amor, o mangá traz várias momentos de reflexão quanto ao preconceito, e como ele influência aquele que pensa dessa forma, assim trazendo uma ambiguidade muito interessante para a obra, bem similar com o que vemos na nossa própria realidade, afinal, quem nunca viu um discurso de ódio em redes sociais anteceder a alguma postagem de amor aos animais. Essa incoerência também é retratada no mangá, em cenas que tive que pausar a leitura, devido a fortes arrepios vindos da base da coluna.

Para fins de conclusão.

Eureka Seven é sem dúvida uma obra que merece sua atenção, ainda mais o mangá que são só 6 volumes já publicados pela Panini. Seis volumes não é nada comparado ao número de séries que você salva para assistir depois no Netflix. Eu sei disso, eu também sou desses…

Com referências bíblicas e o trabalho bem encaixado de roteiro e traço, temos nesse mangá o que eu gosto de pensar como: “algo que vale seu tempo” que hoje está escasso até pra quem acha que tem tempo de sobra.

Sendo assim, dá uma chance pra essa obra, pega emprestado com algum amigo, compre, divirta-se! Mas lembre sempre das camadas que podem ser descobertas em uma leitura mais atenta e sinta o amor, elimine o preconceito e até uma próxima.