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ARIRANG: BTS retorna trazendo nostalgia, história, amor e um conforto aos corações de milhões de fãs que os esperaram por 4 anos

Com 14 faixas, incluindo “SWIM”  como faixa título, ARIRANG quebrou recordes globais e acalentou o coração de milhões de ARMYs ao redor do mundo. Desde a liberação de todos os membros do BTS do alistamento militar obrigatório sul-coreano, os ARMYs, estavam ansiosos com o retorno oficial do grupo, que entrou em hiato em 2022, entre lágrimas e promessas de retorno. 

Mesmo com todas as atenções voltadas para o que os sete poderiam fazer juntos, a Big Hit Music, responsável pela criação do maior nome do K-pop na atualidade, revelou que o retorno estaria previsto para 2026 e que os fãs também poderiam esperar por uma turnê mundial. 

Ainda durante o segundo semestre de 2025, os integrantes viajaram até Los Angeles, onde a HYBE, corporação da qual a Big Hit faz parte, mantém um escritório, para dar início aos trabalhos em “ARIRANG”, seu quinto álbum de estúdio. O projeto traz consigo o resgate de suas raízes, com lançamento que aconteceu na última sexta, 20 de março. 

A produção conta com a participação de nomes de peso da indústria musical, como Diplo, Mike  WiLL Made-it, GHSTLOOP, colaborador desde MAP OF THE SOUL: 7,  o rapper Teezo Touchdown e o produtor já conhecido pelo ARMY, Pdogg, que está com o BTS desde seu debut em 2013. O disco foi descrito pelos próprios artistas como “uma obra profundamente reflexiva”.

Desde o anúncio do pré-save nas plataformas de streaming, em 14 de janeiro de 2026, fãs ao redor do mundo passaram a teorizar sobre a escolha do título. As buscas pelo significado da palavra coreana “arirang” cresceram rapidamente e, em 18 de fevereiro, o lançamento havia quebrado o recorde global de pré-saves, com mais de 3,4 milhões de usuários salvando ARIRANG no Spotify. 

A estratégia de divulgação também se afastou do padrão da indústria do K-pop e ganhou força com o apoio de plataformas como Netflix, Apple Music e Spotify, que passaram a investir em conteúdos exclusivos do retorno. 

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Imagem Divulgação

Com as descobertas sobre o significado do nome do álbum, teorias de que o grupo usaria acontecimentos históricos nas promoções do projeto foram confirmadas e, em 12 de março, foi ao ar um trailer em formato de animação. Na cena inicial, uma explicação contextualizava a proposta:

Este conteúdo foi inspirado na história de sete jovens coreanos publicada no The Washington Post em 8 de maio de 1896 (“Seven Koreans at Howard”) e nos registros de que alguns deles realizaram, em 24 de julho do mesmo ano, em Washington, D.C., a primeira gravação de áudio conhecida de coreanos.

Como uma reimaginação contemporânea, esta obra se baseia no profundo significado cultural desses registros históricos, que preservam as vozes autênticas de jovens coreanos e a primeira gravação já realizada de “Arirang”.

Esta produção pode apresentar diferenças em relação aos acontecimentos históricos reais e não constitui uma avaliação ou interpretação formal de qualquer evento ou personagem histórico.

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Trechos retirados do vídeo “(ARIRANG)’ Animation Trailer: What is your love song?”, disponível no YouTube.

As gravações feitas pela antropóloga Alice Cunningham Fletcher, em 1896, foram um importante marco de intercâmbio cultural, quando sete jovens estudantes coreanos gravaram algumas canções, entre elas o arirang. Descrita como uma música folclórica, não se tem registro preciso sobre seu surgimento, mas seu significado representa temas como amor, nostalgia, saudade, nação, resistência e superação. 

Segundo o professor Robert Provine: Os sete se instalaram na Universidade de Howard, em Washington, D.C., onde foram apresentados a Alice, que realizou as gravações  por meio de cilindros de cera, tecnologia muito utilizados na época (você pode assistir na íntegra a palestra  do professor Robert Provine de 2009 através deste link.). 

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A antropóloga Alice C. Fletcher / Imagem Divulgação
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Cilindros das gravações de “arirang”. Os registros hoje pertencem à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

O símbolo dos cilindros esteve presente durante toda a promoção do BTS para o Spotify, e os ouvintes puderam interagir com a plataforma na tentativa de descobrir mensagens secretas com as vozes de cada membro. 

Jimin descreveu SWIM, faixa-título do álbum, como um início para um novo capítulo: 

Nosso single principal, “SWIM”, tem um significado muito especial dentro do nosso novo álbum, ARIRANG.

Se o álbum fala sobre nossas raízes e emoções profundas, “SWIM” representa o nosso ‘presente’ – onde estamos agora. Acho que essa música marca o início de um novo capítulo para o BTS. Como uma corrente que nunca para de fluir, queríamos mostrar que ainda estamos seguindo em frente, no nosso próprio ritmo. A música realmente conecta nossas histórias passadas com nossos sonhos para o futuro, então, por favor, aguardem ansiosamente.

Outros elementos da cultura e história da Coreia também apareceram ao longo do álbum. Em Body to Body, é possível ouvir um trecho da famosa sample Bonjo Arirang: “Arirang, arirayo. Atravessando o morro Arirang. Quem me deixar pra trás, não vai andar 16 km sem machucar os pés.”

Na faixa intitulada No.29, que para muitos pode ter soado como um grande silêncio, é possível ouvir o som marcante do sino de bronze, considerado o 29° tesouro nacional da Coreia, seguido de um som quase imperceptível de ondas do mar.

Além disso, o ativista Kim Gu, citado em Aliens. Ele foi uma figura importante na luta pela libertação da Coreia durante o domínio colonial japonês e também na defesa da reunificação das Coreias, enquanto os artistas cantam sobre como artistas coreanos são vistos pela indústria externa: “Desde o nascimento somos diferentes, 7 aliens”. 

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O sino Sagrado do Rei Songdeok
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O ativista Kim Gu / Imagem Divulgação

Ao ouvirmos todas as canções que compõem ARIRANG, a mensagem que o BTS deseja transmitir fica clara: Este é um álbum sobre quem eles são e sobre o que eles ansiosamente desejaram falar durante a época de reclusão, uma obra para os fãs que os esperaram por anos. Em entrevista a repórter Lee Min-Ji, RM, líder do BTS, fala sobre os critérios que eles utilizaram para incorporar os elementos coreanos: 

“Em vez de incorporar elementos coreanos exatamente como são, dentro de uma estrutura fixa, queríamos expressá-los naturalmente, à nossa maneira. Isso porque acreditamos que as emoções são transmitidas de forma mais abrangente quando variações sutis e nossas próprias interpretações únicas são adicionadas. Queríamos pegar ‘Arirang’, que pode ser interpretada de várias maneiras, e tentar abordá-la de uma forma um pouco diferente, reinterpretando-a de uma nova maneira.”

Apesar das expectativas da parte do público de que o lançamento seria inteiramente em coreano, o grupo reforça o conceito de intercâmbio cultural que vinha construindo ao longo das suas promoções e incorpora o inglês em diversas faixas. A escolha, no entanto, levantou debates e frustrações, com alguns grupos de fãs interpretando o movimento como se eles tivessem cedido à indústria e até o afastamento de suas raízes. 

Segundo a pesquisadora, artista de dança e arte-educadora, Yasmin Chung, vinculada a instituição de pesquisa independente, B-ARMYs Acadêmicas:

“A partir da minha vivência como pessoa da diáspora, especificamente taiwanesa, aqui no Ocidente. Por causa do orientalismo tem-se uma expectativa do que é ser, no meu caso, taiwanesa, no caso deles, coreanos, do que é ser asiático. E não é nem especificamente da nacionalidade, mas o que é uma pessoa do Leste-Asiático, porque por aqui ainda se coloca muito ‘no mesmo saquinho’. 

E, uma vez que eles trouxeram a público esse desejo de ‘nós queremos voltar às nossas raízes, queremos sempre promover, de certa forma, a cultura coreana’, as pessoas esperam muito, ao meu ver, de que isso também seja pelo idioma. Só que, não necessariamente eles deixaram de transmitir aspectos culturais da Coreia do Sul, do que é ser coreano e da história deles, por escolherem o inglês. Eles não deixaram de ser homens sul-coreanos, eles não deixaram de ser artistas por uma escolha que também pode sim, ter um viés artístico.”

Performance para a premiação coreana, Melon Music Awards, em 2018. A apresentação tornou-se um patrimônio imaterial coreano:

Yasmin também cita o pesquisador Edward Said, autor da obra Orientalismo: O oriente como invenção do Ocidente, ela lembra que nele o autor discute como o Ocidente constrói essa ideia de “Oriente” para se diferenciar e exercer controle: 

“Enquanto existir essa narrativa de poder, nada do que qualquer pessoa racializada faça vai ser suficiente para ela ser ela mesma, porque a própria existência dela não é suficiente aos olhos de quem está no poder.” 

Para ela, é natural criar expectativa, mas ela pertence a quem as cria, e não precisam ser correspondidas:

“Nós, pessoas amarelas, não precisamos cumprir expectativas que criaram sobre nós, de como nós devemos agir, de como nós devemos nos comportar, de como nós devemos nos expressar. Porque nunca vai ser suficiente para as pessoas racializadas a expressão cultural delas.” 

Ao ler as traduções das letras de cada música, percebe-se que o tema principal conversa diretamente com essa discussão: expectativas. Em they don’t know about us, o BTS aborda como as pessoas tentam especular sobre quem eles são e como eles conseguiram chegar até ali:

Todo mundo escuta a história que quer ouvir. “Eles estouraram por causa disso”, acham que tão certos. Somos só caras grandes, tipo caipiras. É só atitude mesmo, então cala a boca […] Toda vez que a gente tenta explicar, a gente percebe: Eles não sabem sobre nós, eles não sabem sobre nós

Apesar de muita espera, o que marca esse retorno é uma mensagem de saudade, acalento e reafirmação, com uma produção mais focada em sua própria história e em despertar uma nostalgia nos fãs que os acompanham há anos. Com ARIRANG, o ARMY pôde revisitar os anos iniciais do BTS, como nas obras “DARK & WILD”, lançada em 2014 e “Wings”, de 2016. Em entrevista, SUGA, explica que decidiram que ARIRANG não seria sobre uma grande mensagem, mas sobre eles mesmos. 

O álbum revela um lado mais intimista, que pode não agradar a todos os públicos, mas já vem recebendo boas avaliações de críticos de veículos como The Guardian, Clash, Rolling Stone UK e Consequence of Sound. Quando perguntados sobre os elementos coreanos nas músicas, j-hope explica: 

“Também incorporamos a empolgação e a cultura da Coreia nas letras do novo álbum. Tentamos criar mais “pontos de encontro entre nós sete” em vários aspectos. Acredito que retornar e mostrar quem somos significa, em última análise, começar pelas nossas raízes. Acredito que somos quem somos hoje porque essas raízes se fortaleceram enquanto estávamos juntos.”

A live da Netflix, que aconteceu neste sábado, dia 21 de março, às 8 horas, foi um marco do retorno do grupo aos palcos. Entre as músicas novas e sucessos já conhecidos, como Mic Drop, Dynamite, Butter e finalizando com a emocional Mikrokosmos, milhares de pessoas, de diferentes partes do mundo, acompanharam ao vivo na Gwanghwamun Square, ponto turístico que possui 600 anos de história. Ao fundo do palco, era possível ver o Palácio Gyeongbokgung, enquanto imagens aéreas também destacavam o monumento do Grande Rei Sejong, criador do Hangul (escrita coreana). 

Em uma versão moderna e elegante, os integrantes usavam peças do hanbok, vestimenta tradicional coreana, e a abertura contou com Body to Body e uma banda interpretando Arirang. Para a internacionalista Ana Clara Gomes, que acompanha o BTS desde 2017, o momento foi ainda mais especial do que o esperado: 

“Eu esperava que ia ser maravilhoso, mas excedeu minhas expectativas. Eu fiquei extasiada do minuto um até o minuto final. Fiquei muito animada! Não esperava que eles fossem incluir músicas antigas na setlist desse show, e foi mágico ver as músicas depois do lançamento do álbum novo ao vivo, conseguiram ficar melhores ainda. 

Foi mágico ver eles juntos de novo depois de tanto tempo de espera por esse retorno. E ouvir as músicas antigas agora e se reconectar com algo que a gente já conhecia, mas também se reconectar com algo que a gente conheceu um dia atrás. Acredito que ver eles felizes e as ARMYs que passaram no telão, é você sentir um pertencimento, uma sensação de êxtase, de alegria. “

Um pouco depois do lançamento do álbum, os fãs foram surpreendidos por uma nota oficial da empresa do grupo informando que RM, havia machucado o tornozelo no dia anterior e, por recomendação médica, participaria das atividades com algumas restrições. Para um grupo reconhecido por suas coreografias desafiadoras, a notícia gerou preocupação, mas o artista acalmou os fãs durante a live realizada no YouTube na madrugada do dia 20 de março: 

“Durante os ensaios, me esforcei bastante e acabei lesionando o tornozelo. Não vou poder me apresentar imediatamente, mas estarei no palco para encontrar vocês. Cantarei e animarei a todos! Farei o possível para me recuperar a tempo dos shows. Por favor, não se preocupem, não é nada grave.”  

Para Dan, DJ e fã do grupo desde 2015, a notícia do incidente durante os ensaios foi um momento de inquietação: “Não pela simples expectativa de ver ele, mas pelo que estaria passando pela cabeça dele e um possível medo de decepcionar, ‘estragar tudo’. Saber que ele estará ali e entregará sua voz, mesmo sem dançar e dentro de restrições, é o mais importante. Espero que ele possa receber nossa torcida e ver que cada grama de seu esforço é muito reconhecida.” E apesar das limitações, a performance saiu como esperado, alegrando todos os fãs. 

A plataforma de streaming, além de transmitir o primeiro show ao vivo do grupo após o hiato, também disponibilizará em sua grade o documentário BTS: O reencontro, no dia 27 de março, que contará com os bastidores desde a saída dos membros do exército até a produção de ARIRANG. Para Ana Clara, o documentário surge como uma oportunidade de mostrar o outro lado do que aconteceu durante os últimos 4 anos: 

“Como ARMY a gente sabe como foi para a gente, como foi doloroso e ao mesmo tempo transformador, porque a gente passou por muitas fases. A gente viu eles de outras maneiras, a gente sempre pensou muito sobre o exército, mas nunca tínhamos vivenciado. Então eu acho que o fandom está com expectativa de ver como foi para eles estarem passando por todos esses anos sem estarem juntos como o ato que é o BTS.” 

Para 2026, além do retorno do grupo, o anúncio da turnê mundial tem deixado fãs de todo o mundo ansiosos e cheios de expectativas. Com três shows anunciados no Brasil, nos dias 28, 30 e 31 de outubro de 2026, os ARMYs brasileiros estão agitados com a falta de informações sobre data de início de vendas, ticketeira responsável e valores. Enquanto isso, em outros países, os ingressos já se esgotaram em estádios, mas espera-se que as informações sejam divulgadas nos próximos dias. 

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Imagem divulgada pelo perfil do artista.

Enquanto os próximos passos ainda aguardam anúncio e os fãs seguem na expectativa, ARIRANG já cumpre seu papel: reconectar. Assim como “Arirang” atravessou gerações carregando histórias, o BTS transforma sua própria trajetória em memória e continuidade. 

Depois de anos de espera, este álbum entrega não apenas música, mas presença. Para quem ficou, para quem esperou e para quem cresceu junto, o retorno do BTS não marca um fim de hiato, mas a continuidade de uma história que nunca deixou de ser construída em conjunto.

Ouça ARIRANG no Spotify:


Alice C. Fletcher e Arirang: https://www.loc.gov/item/2021688047/?loclr-blogflt 

Entrevista Lee Min-Ji: https://m.entertain.naver.com/home/article/609/0001104630 

Kim Gu: https://www.hyunjinmoon.com/kim-gus-dream-one-korea-2/ 

Sino Sagrado do Rei Songdeok: https://english.visitkorea.or.kr/svc/contents/contentsView.do?vcontsId=94420

Ana Luiza Barbosa
Ana Luiza Barbosa
Jornalista e comunicadora apaixonada por cultura pop, fandoms e tudo que conecta pessoas através de histórias, traduzindo o universo acadêmico para uma linguagem mais leve.

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