Quem não gosta de se aventurar pela história e todo seu esplendor por meio de filmes, novelas e séries? Pois o título da HBO, “Dona Beja” nos oferece isso e muito mais. Venha conhecer a lenda da mulher que desafiou a tudo e todos, ganhando poder e respeito em pleno século XIX, no interior do Brasil, através do imaginário da série, com uma produção esplêndida!
ATENÇÃO – Minha review não possui spoilers, mas é importante salientar que a série possui cenas de violência, e teor sexual, portanto, recomendada apenas para faixa etária adulta (16 anos)
A série “dona Beja” que foi lançada no dia 2 de fevereiro, recentemente chegou a seu capítulo final, totalizando 40 episódios, lançados semanalmente
A produção que contou com mais de 350 profissionais, uma cidade cenográfica detalhadíssima, um figurino impecável com mais de 3.000 peças, e efeitos visuais que deixam qualquer um com os olhos abismados, nos traz uma série com linguagem e acontecimentos bastante contemporâneos, tudo em meio a uma história direto do Brasil Colônia.
“Meu destino era viver. Criada pelo meu avô como uma princesa, mas eu aprendi com minha mãe a ser Beija Flor, e voar”
Com, o protagonismo de Grazi Massafera, conhecemos Anna Jacintha, mais conhecida como Beja, uma jovem de 16 anos, apaixonada pela vida e por seu noivo Antonio, que como toda boa menina, sonha em se casar com seu príncipe encantado, e viver seu “felizes para sempre”, apesar de todos os reveses de sua vida. Filha de uma mãe solteira falecida, e vivendo apenas com seu avô, Beja, apesar de ser encantadora, já sofre pelos maus olhos das famílias tradicionais da pequena Vila de Araxá. Enquanto espera o retorno de seu noivo da Europa, para que seu sonho de se casar finalmente se realize, Beja é sequestrada por um poderoso ouvidor que se encantou por sua beleza, e assim, levada para longe , tendo sua vida simples e feliz, virada de cabeça pra baixo e sonhos destruídos.
Após alguns anos, conseguindo escapar, Beja retorna a Araxá, com toda a sua sabedoria aprendida para sobreviver, e reencontrando seu amado noivo Antonio, que movido pelos mal dizeres da cidade e sua família, não acredita na fidelidade de Beja, e a nega. Além disso, também vê toda a conservadora população de Araxá lhe virar as costas. Assim, ela decide se tornar Dona Beja.

“Se a vida me fez mulher Dama, eu vou transformar o mundo todo num bordel!”
A série da HBO, nos traz aspectos e discussões interessantes e atuais, como o empoderamento feminismo mediante a uma sociedade patriarcal, onde mulheres não têm voz ou vontade própria, a personagem enfrenta essas dificuldades , se igualando e impondo seu poder ao mesmo nível dos coronéis da cidade e da região, usando de seus artifícios, sedução, e dinheiro conquistado, e nunca aceitando qualquer desaforo e desrespeito, vindos de qualquer lugar. Através da Chácara do Jatobá, sua propriedade onde ela trabalha como uma prostituta de luxo, Beja possui a escolha dos homens que terão o privilégio de se deitar com ela, e assim, noite a noite, aumentando seu poder e influência.
Em contrapartida, a série também nos retrata uma taverna, onde mulheres que foram negadas na sociedade, também são prostitutas, mas sem o mesmo privilégio.
Mas não se enganem, pois estas, com o desenvolver da história, também se empoderam gradualmente, junto com a ascensão de Beja.
Além delas, diversas outras personagens, como Angelica, a esposa de Antonio, Carminha, uma doce menina que sofre desabafos diários de sua mãe, Severina, uma mulher Trans, fiel companheira de Beja, Candinha, uma mulher recusada e jogada na taverna, Genoveva Felizardo, uma esposa maltratada por seu marido e até mesmo Maria, a principal antagonista de Beja, também são exemplos de empoderamentos, que vão gradualmente nascendo dentro de cada uma, através da influência indireta de Beja.

“Todas as pessoas merecem ser livres”
Junto da trama, a série nos traz outra questão atual, como o racismo.
Antonio (David Junior) o primeiro amor de Beja, é um homem negro, advogado, e politico, e neto da lendária avó Lueji, uma mulher negra, que comprou a alforria de si e de outros, com um ouro que encontrou. Antonio cresceu com a missão de seguir os passos da avó, na luta pela liberdade dos cativos.
Além dele, outro protagonista masculino também é do personagem João (André Luiz Miranda), amigo de infância de Antônio, também advogado, e ativista na libertação, e nascido livre, graças a alforria de sua família comprada por vó Lueji.
Durante o passar dos anos, ambos se dividem diversas vezes entre suas amizade, suas irmandades negras, suas lutas pela liberdade dos escravizados, e por sua paixão por Dona Beja, ora unidos, ora rivais.
Dois personagens, que trazem desenvolvimentos diferentes, em situações parecidas, sendo homens, em meio a um século com diversos preconceitos.
Além dos dois, também temos personagens negros em posições altas e baixas na sociedade, e todos nos envolvem nas mesma luta, e assim como com as mulheres, seus desenvolvimentos pessoas e como sociedade.

“Somos iguais em desgraça, vamos cantar o Blues da Piedade”
Ao assistir o primeiro episódio, a trama nos prende rapidamente, já nos colocando em meio ao retorno de Beja a Araxá, ao mesmo tempo que nos introduz ao passado, da infância de Beja, ao seu rapto.
Assistir ao desenvolvimento de todos os personagens como sociedade, é um deleite, uma vez que todos eles possuem seus dramas, defeitos e qualidades, mas igualmente, tentam sempre manter a pose da perfeição e da boa moral.
Cada personagem, independente do papel, são perfeitamente bem construídos, fazendo com que a humanidade seja percebida. Aqui, coloco uma percepção talvez única minha, mas, acabei por ver os todos os personagens, como anti-herois, pois mesmo o mais vil dos vilões, como o Coronel Felizardo (interpretado maravilhosamente por Tuca Andrada) por vezes, colaboram com o desenrolar de tudo, as vezes atrapalhando, vezes ajudando no desenrolar da trama.

“Prezado Imperador, aqui quem vós escreve é Anna Jacintha… ou melhor, Dona Beja”
Dona Beja se destaca não apenas pela grandiosidade de sua produção, mas também pelo cuidado técnico que sustenta sua narrativa. A fotografia bem trabalhada, o figurino detalhista e a construção de uma ambientação imersiva ajudam a criar a experiência visual envolvente, enquanto o roteiro conduz a história com ritmo e intensidade. Atualmente completa, pode ser assistida na HBO Max. Do ponto de vista pessoal, a série se mostrou extremamente agradável de acompanhar, daquelas que prendem e deixam um gostinho de “quero mais” a cada capítulo (e eu acompanhei os episódios semanalmente, sofri um pouco de ansiedade
E destaco também, para finalizar, que apesar de todos os elementos inventados para se formar uma trama de novela, a série entrega com toda a delicadeza suas referências de forma muito positiva. A lenda de Dona Beja, ou seja, a verdadeira Dona Beja de Araxá, que foi capaz de se inventar e ser uma mulher forte e empoderada, muito a frente do seu tempo, e nos lembra finalmente, que apesar de ser uma história que nos mostra problemáticas que aconteceram a quase 100 anos atrás, consegue ser ainda extremamente atual.
Simplesmente, não percam!


