Quem acompanha pelo menos um pouco do universo dos quadrinhos brasileiros, já ouviu falar de Mario Cau, quadrinista de Campinas, professor, autor da série Pieces, da webcomic Terapia (com Rob Gordon e Marina Kurcis) e da versão em quadrinhos de Dom Casmurro (com Felipe Greco).

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Conheci seu trabalho no começo de 2016, quando assinei o Social Comics (conheça AQUI) e comecei a buscar os títulos com as capas mais bonitas (sou dessas). O primeiro contato foi com NÓS – Dream Sequence Revisited, que me deixou nada menos do que deslumbrada e me obrigou a buscar o que mais teria feito esse tal de Cau, o cara que conta histórias cotidianas de uma forma ao mesmo tempo leve e profunda, com traços tão característicos que de longe a gente olha e pensa “eu quero ver aquilo, com certeza é bom”.

Desde então eu o coloquei na lista de “indicações a fazer do SUCO”, mas fui postergando por não conseguir expressar exatamente o que eu senti com cada história. Mas ei que chega o momento em que me convenço de que este pensamento de hora certa não me cabe mais e aqui estamos.

NÓS – Dream Sequence Revisited

[LEIA AQUI] Um sonho, em que os quadros são mais do as delimitações de cada cena: fazem parte delas. Sem falas, dialogam com as nossas sensações, com o vermelho contrastando com o universo habitualmente preto e branco.

Publicado pela Balão Editorial, faz parte de Pieces, então é interessante ler esta história antes de cair nas garras da série em si. O trabalho rendeu uma exposição, que é detalhada ao final do livro, e uma motion comic – vou deixar o link aqui, mas recomendo seriamente que se faça primeiro a leitura, depois complemente a experiência assistindo o vídeo.

Série Pieces

[LEIA AQUI] Pieces conta pequenas histórias do dia a dia, comuns a mim e a você (provavelmente), em uma visão mais poética. O tema mais recorrente é relacionamento, com os seus encontros desencontrados. Os quadros novamente são mais que limitações, muitos são molduras de pedaços da cena, formando fotografias que farão parte do álbum da vida, digamos.

A série foi produzida entre 2004 e 2010, e no relançamento em formato digital em 2014, ao final das duas primeiras edições há um “bônus track”, histórias publicadas anteriormente em outras revistas e que fazem parte da trajetória de Mario Cau no mundo dos quadrinhos. Os quatro números da série estão disponíveis no Social Comics, já as edições impressas são mais difíceis de encontrar – a maioria em sebos, já que nas lojas estão esgotadas.

Detalhe sobre o #1: uma das histórias é baseada no poema “Déjeuner du Matin” (Café da Manhã), de Jacques Prevert.

Detalhe sobre o #4: é composta de apenas uma história, a “Mais uma dose – parte 1”.

Pieces – Partes do todo

[LEIA AQUI] Lançada em 2016 na CCXP, nos traz novamente “Mais uma dose – parte 1” e agora vem também sua continuação, junto com outras histórias inéditas, mas de uma familiaridade tão grande que se vê os números anteriores infiltrados nas páginas, além de perceber a si mesmo em alguns momentos.

É o fechamento da série com ainda mais sentimento. Ao ler, deixe-se mergulhar. Saboreie cada quadro, cada frase, aproveite ao máximo a arte que nos foi disponibilizada. Vale cada segundo gasto.

Indifference

[LEIA AQUI] Baseada na música do Pearl Jam, esta HQ foi produzida usando tinta e lápis brancos sobre papel preto, durante um estágio do autor. Gostando ou não da banda, vale a experiência de ler ouvindo a música.

“How much difference does it make?”

Morphine

[LEIA AQUI] Nasceu como roteiro para uma das edições de Pieces, mas se desenvolveu tanto que ganhou um livro próprio. Morphine é uma nova casa noturna, onde um grupo de amigos se encontra e onde está o foco da história. As personagens refletem sobre relacionamentos, a futilidade e a essência de elementos do cotidiano, mas principalmente, sobre os desencontros da vida. Se você nunca pensou em uma balada de uma forma poética, agora é a hora.

“É só lembrar daquele lance do gato. Se você não tentar, nunca vai saber.”
“O gato de Scrödinger nunca esteve tão morto.”
(…)
“No final das contas, a gente aprende que cair acontece, mas permanecer no chão é idiotice.”

Nota: No final do livro, tem uma tracklist (de muito bom gosto, por sinal) com as músicas que embalam os doze capítulos da história. Vale ouvir.

Quando a noite fecha os olhos

[LEIA AQUI] Roteiro de André Diniz, arte de Mario Cau. O sol ilumina a todos, embora os dias às vezes pareçam ser apenas escuridão, com pancadas de chuva torrencial. Nesta hq é assim: emoções traduzidas no céu do protagonista, que enxerga apenas a lua e passa seus dias em diálogos com os poucos objetos espalhados pela sua casa.

Mais uma vez, como nos demais trabalhos com a mão de Mario Cau, temas tão comuns são tratados poeticamente, e neste caso, apesar de pesados, são apresentados de forma leve – não menos tocante.

Terapia

[LEIA AQUI] Webcomic produzida em parceria com Rob Gordon e Marina Kurcis, conta a vida de um cara comum, que aparentemente não tem sobre o que reclamar: tem uma família, tem emprego, tem estudo, tem namorada, tudo em níveis considerados satisfatórios. Porém, ainda assim, ele sente que falta algo, sem conseguir definir bem o quê.

Assim, acompanhamos suas conversas com o terapeuta e suas reflexões sobre a própria existência, relacionamentos, culpa e outras questões típicas do ser humano, sempre embaladas pelo blues. Terapia, que já ganhou o Troféu HQMix de Melhor WebQuadrinho, é publicada semanalmente em PETISCO e possui 6 edições compiladas no Social Comics. 😉