crunchyroll disponivel

Será que conseguiríamos alcançar a paz mundial, se toda dor fosse compartilhada? Você conseguiria machucar o próximo, sabendo que isso significaria machucar a si mesmo e as pessoas a quem você ama? Será que apenas compartilhando suas dores, as pessoas seriam capazes de compreender o outro como compreendem a si mesmas? Além de todos esses questionamentos e dessa premissa utópica, acredito fortemente que Kiznaiver tenha o necessário para, além de entreter, trazer aos seus expectadores um sentimento que tão pouco tem sido visto nos dias atuais: Empatia.

Sinopse: A história desenvolve-se numa cidade fictícia, no Japão, designada por Sugomori City. Apesar de aparentemente normal, esta cidade é na verdade um laboratório no qual se realizam experiências humanas, de forma contida, mas em larga escala. Para já, a experiência que afecta os personagens principais designa-se por Kizuna System. Este procedimento (incompleto) tem como principal objetivo atingir a paz mundial, através da partilha de dor física. Ou seja, as pessoas que fizerem parte do sistema irão partilhar/dividir a dor infligida a qualquer um dos membros do sistema.

Os Pecados Capitais Repaginados!?

É de conhecimento geral que nenhum anime é lançado especificamente numa temporada ao acaso. Dito isso, saibam que todo esforço e capital necessário para tal, é intensificado durante as temporadas que se iniciam em abril e outubro, por se estabelecerem durante um período de férias escolares e alguns feriados. Mas porquê estou deliberadamente me prendendo nessa informação aleatória? O que eu gostaria de deixar claro através desse post, é todo o potencial explicito envolto nessa obra.

kiznaiver-poster 1
Kiznaiver (Imagem Divulgação)

Com o lançamento do primeiro episódio no dia 9 de abril, o anime conta até o momento com 6 episódios lançados dos (infelizmente só) 12 que estão previstos. A animação fica á cargo do conceituado estúdio Trigger (Kill la Kill), mas no roteiro temos, ninguém mais ninguém menos do que a deusa Mari Okada (AnoHana/ Nagi no Asukara). Eu particularmente sou um grande fã dos seus trabalhos, mas tenho observado muitas pessoas demonstrando certo grau de insegurança com relação aos mesmos, pois, de acordo com essas pessoas, enquanto detêm um grande talento no que diz respeito a adaptações, quando se trata de roteiros originais, ela não é tão incrível assim. Admito que seus roteiros por muitas vezes costumam seguir uma fórmula melodramática e batida, mas é plausível acreditarmos que a sinergia ocasionada entre suas obras e alguns expectadores específicos seja advinda das experiências pessoais dos mesmo, ou seja… Cada pessoa vai reagir ao drama de uma maneira diferente.

O primeiro minuto do episódio inicial de Kiznaiver mostra um garoto, possivelmente o protagonista, correndo numa instalação aparentemente secreta, enquanto tenta alcançar sua amiguinha que por algum motivo louco quer se jogar de uma espécie de andaime, enquanto enaltece o protagonista, dizendo que ele era diferente do “resto”, e que ele definitivamente iria recuperar sua dor. Seria interessante se esse minuto fosse apresentado como um daqueles sonhos que na verdade são memórias adormecidas, mas não foi. A partir dai, o episódio foca nos acontecimentos do presente, em especial, na apresentação dos personagens.

Através das divagações da personagem Sonozaki Noriko, responsável pelo andamento do Kizuna System, somos vagamente apresentados aos estereotipados (e alguns até clichês) reflexos dos jovens na sociedade contemporânea japonesa, substituindo então o arcaico conceito de pecados capitais que conhecemos. Temos o “Imbecil” (nosso protagonista, Katsuhira Agata), o “Normalzão astuto” (Yuta), a “Toda poderosa” (Maki), a “Moralista irritante” (Chidori), a “Excêntrica” (Niyama), o “Delinquente musculoso” (Tenga, meu favorito s2), e um sétimo que no primeiro episodio não nos foi apresentado. Com exceção de Katsuhira e Chidori, que já são amigos, os outros Kiznaivers são pessoas que definitivamente não se entreolhariam em circunstancias normais, e a interação entre essas personalidades tão diferentes certamente dará um bom tempero á trama.

Um por todos… Todos pela vitória!

Apesar das transições entre algumas cenas não parecerem tão fluidas (provavelmente no intuito de atingir logo alguns pontos chaves determinantes para a progressão narrativa), podemos observar um trabalho digno de nota no que diz respeito ao enquadramento dos frames, paleta dos tons e ambientação. Podemos atribuir também um grande valor artístico á sua trilha sonora, principalmente a opening, com sua batida techno característica das boates europeias, que é propositalmente psicodélica e enfatiza a confusão mental á qual os personagens estarão submetidos daquele ponto em diante, enquanto a ending contrasta com tudo isso, utilizando as personagens femininas e fundos brancos afim de demonstrar suavidade… Realmente um primor.

É deveras interessante quando o anime propõe discussões sociais acerca do sistema, principalmente quando se trata de um tema tão complexo e vastamente discutido como paz mundial. Não é um ideal tão fácil de se conseguir, e Noriko sabe disso. Por mais que sua visão seja deturpada, seus interesses são sinceros. Pegue uma associação misteriosa, um pouco de trauma aqui e ali, interesses mundiais e interesses particulares, e some a personagens jovens que não estão nem um pouco preparados para as provações que terão de enfrentar… Voilà! A palavra “kizuna” significa conexão, e, em suma, acredito que esse anime tenha os recursos necessários para exemplificar, e não só com palavras, que a mesma dor que nos separa de algumas pessoas, também pode ser usada para fazer nossos laços mais fortes.