Hellblade: Senua’s Sacrifice é o mais novo jogo da Ninja Theory, conhecida pelo reboot de Devil May Cry, Heavenly Sword e Enslaved: Odyssey to the West. Depois de nosso PRIMEIRO GOLE, nada mais justo de que uma análise completa com nosso REVIEW!

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O adventure/hack n slash saiu para Playstation 4 e PC, esta última, a que acabei fechando em torno de 8 horas, ou dois dias de jogatina. Já figurando entre os melhores lançamentos do ano, Hellblade: Senua’s Sacrifice avança mais um degrau dentro do escopo de Jogabilidade e Imersão nos games.

ATENÇÃO: O texto abaixo pode conter spoilers do jogo. Se você ainda não o jogou, recomendamos a leitura de nosso PRIMEIRO GOLE

The Independent AAA

Se você tem um Facebook (99% de chance) e tem uma timeline repleta de posts sobre games, já deve ter se deparado com a comparação: “Hellblade fez com 20, o que o jogo X não fez com 200”. 

É, até aí tenho que concordar. A equipe da Ninja Theory que desenvolveu Hellblade: Senua’s Sacrifice, contou com aproximadamente 20 desenvolvedores e por conta disso, se manteve muito unida nestes 3 ou 4 anos de produção, o que refletiu no belíssimo acabamento do game.

Nós sabemos das limitações técnicas e financeiras (esta última, principalmente), entretanto, arrisco a dizer em que a Ninja Theory acabou usando disso a seu favor. Além do marketing que acabamos vendo por aí nas interwebs, como “um indie game com qualidade AAA”, a jogabilidade limitada e linear combinou incrivelmente bem com a proposta do jogo.

Em grande parte do jogo, Senua se vê solitária em sua jornada.

Você iria até o inferno em busca de seu amado?

Hellblade: Senua’s Sacrifice conta a história de Senua, uma guerreira celta que perdera tudo com a invasão dos vikings, inclusive seu amado Dillion. Sua principal motivação é de encontrá-lo vivo ou morto, e se neste segundo caso, ir até os confins do inferno!

É aí que Senua decide ir até Helheim, um dos nove mundos da mitologia nórdica, confrontar frente-a-frente Hela, a deusa dos mortos. Ela conta com a ajuda de Druth, um escravo foragido dos guerreiros vikings e que acaba sendo encontrado na vila onde Senua morava, que serve de “glossário” no jogo, contando sobre as lendas nórdicas no decorrer do jogo.

*O nome Senua vem em homenagem a deusa celta de mesmo nome e/ou Senuna e Sena. 

Senua

Pela espada de Odin! 

A trilha de Senua não se resume em apenas achar o caminho correto até Helheim. Há um equilíbrio de desafios, onde o jogo te coloca em uma região cheia de puzzles para resolução, como também o combate é uma dessas Provas que a protagonista deve passar.

De forma simples e puramente intuitiva, as batalhas se resumem em sua habilidade com a espada – e o quão bom você é em fazer combos. Para dar um efeito especial no jogo, há uma habilidade chamada Focus, onde Senua consegue agir com mais velocidade e força contra seus inimigos.

Falando em inimigos, não há uma variedade tão grande no jogo, algo em torno de 6 ou 7, cada um com uma estratégia diferente para abater.

Valravn, um dos inimigos de Hellblade: Senua’s Sacrifice (Imagem Divulgação)

Como o jogo é focado na mitologia nórdica, além dos guerreiros vikings, existem as criaturas míticas deste povo, como corvos, o gigante de fogo Surtr e o deus da ilusão Valravn. Quem tiver uma quedinha por estas histórias, vai surtar (não pode faltar um trocadilho) com as referências.

Mil e uma vozes em minha mente

Vale uma recomendação: jogue com fones de ouvido! A imersão será indubitavelmente maior. Caso você tenha aqueles fones com mais canais, algo como 5.1 e 7.1, melhor. O jogo trabalha com som binaural, ou seja, uma gravação diferenciada para quem for ouvir, ter uma ambientação e percepção de distância.

Que me recorde, o momento mais interessante é quando você está nas áreas de Valravn, o deus da ilusão, onde ele utiliza de artifícios que vão além do visual, o que mostra o exímio trabalho de sound design do game, talvez do melhor em anos!

Outro ponto que gostaria de ressaltar quanto ao som, é com a técnica de ASMR. Para quem não conhece, esta sigla significa Autonomous Sensory Meridian Response (“resposta sensorial autônoma do meridiano”, em tradução livre) – e recomendo você dar uma procurada no YouTube – e com o fone, é possível identificar cada uma das vozes que rodeiam Senua, como também reparar em suas texturas, timbres e até mesmo os sussurros e balbuciar dos lábios.

Trilha Psicótica e Épica

É sabido que o jogo trabalha dentro do escopo de que Senua sofre de uma doença mental, a psicose. Com isso, o sound design é todo trabalhado para você sentir na pele como seria alguém que conta com esse tipo de problema (cito sobre a pesquisa da Ninja Theory mais abaixo).

Como se não bastasse o trabalho com ambientação, cenário e da engenharia em gravar as diversas vozes que permeiam os pensamentos da guerreira celta, a trilha sonora – principalmente das batalhas mais épicas – é de tirar o fôlego.

É gratificante em ver que se preocuparam também em deixar o jogo mais “popular”, e não tão indie/cult, como se vê por aí. Há diversos momentos em que o game exala adrenalina, algo próximo do que vemos em hack n slash, ou um God of War, por exemplo.

A belíssima fotografia de Hellblade: Senua’s Sacrifice

Captação de movimentos e interpretação

Hellblade: Senua’s Sacrifice utiliza do artifício de captar movimentos de pessoas e atores reais, implementando nas personagens do jogo. O interessante é de que em determinados momentos de diálogo, é possível ver o trabalho de mesclagem do estúdio em deixar algo “real e com polígonos”, ao mesmo tempo, como se fosse um filtro. Com isso, grande parte dos personagens do jogo são caracterizações muito próximas das que os atores utilizavam.

Algo que poucos sabem é de que a atriz que faz Senua, é também a editora de vídeos, Melina Juergens, da Ninja Theory, atuando muito bem como a guerreira celta. Abaixo é possível ver um vídeo sobre o processo de captação de seus movimentos.

Realidade Imersiva

Com uma história bem escrita, uma ambientação elaborada, gráficos bonitos e explorando muito bem o que uma Unreal Engine 4 é capaz, a Ninja Theory consegue o que poucos estúdios são capazes dentro desse conceito de jogo: a imersão.

O jogo trata de uma forma tão natural a psicose de Senua no decorrer do jogo, que é possível sentir as angústias e medos da personagem sem os mesmos estarem tão explícitos em tela. Desde a forma em como é tratada a movimentação – bem linear, por sinal – até a resolução dos puzzles, onde neste último temos uma maior evidência dos problemas desta doença mental, tudo é bem desenvolvido e entrelaçado junto a proposta.

Conteúdo e Pesquisa

Como citado no início do texto, a produção do jogo sempre foi muito unida e coesa, e isso refletiu na pesquisa sobre as doenças mentais, em especial a Psicose. Enquanto você joga, alguns questionamentos surgem, como “como era ter psicose na antiguidade?”, “como era ter uma doença mental na época?” e também, “como os antigos viam o doente na sociedade?”. Estes pontos são tratados no jogo, não só pelo ponto de vista em primeira pessoa de você/Senua, mas também no ponto de vista da Família, marido e pessoas do seu vilarejo.

Hellblade: Senua’s Sacrifice trata a psicose nunca vista antes no universo dos games, e arrisco a dizer que até nos cinemas, desmistificando a sabedoria popular. Por sinal, o trabalho da Ninja Theory foi tão bacana que há um suporte de quem passa por estes transtornos mentais. Arrisco a dizer de que o game possa ser até uma forma de identificar (como um gatilho) se você tem algo similar a Psicose. Para mais informações, vocês encontram no SITE OFICIAL.

Uma das características da Psicose, é de que a pessoa consegue identificar padrões e combinações nos ambientes.

A Luta Interna

Antes mesmo de sair, Hellblade: Senua’s Sacrifice era classificado como um Walking Simulator ou “jogo cinematográfico”, e como forma pejorativa. É possível SIM ter um bom gameplay e jogabilidade no jogo, concomitantemente numa história linear e cinematográfica. Por sinal, há alguns bugs nos combates, principalmente com relação a câmera, mas que foram resolvidos num patch recente.

Não me recordo de um game que explore tão bem estas características citadas acima, único em sua proposta, sem marcadores de vida, HUD ou um menu interativo. Tudo o que você joga é a realidade de Senua, seus medos, dores e além de tudo, sua luta interna pelo autoconhecimento.

Artes e imagens via HELLBLADE.COM