Como muitos sabem, Death Note é conhecido por ser uma obra complexa, cheia de detalhes e simbologias. Mesmo os fãs mais assíduos sempre terão material e questões de sobra para divagar. Eis que hoje, vamos refletir um pouco mais sobre quem ou o quê é essa figura tão enigmática do shinigami Ryuk e a representação do caderno-maçã.

Confira também: Death Note – A justiça de L e a Hipocrisia de Kira

[Para essa análise será utilizado como referencial principal o mangá da série.]

*Imagem de capa por zzyzzyy

Fruto proibido

Em um review rápido, podemos relembrar que a partir do momento que Light se vê em posse do caderno aos poucos sua ideia de ‘justiceiro’ se evoluí para ‘deus’ do novo mundo. Mera megalomania e arrogância? Talvez não.

Já pararam para pensar que há um simbolismo intrincado entre a maçã e o caderno? A maçã é um fruto simbólico que repetidamente aparece na história e em diferentes mitologias. Em Death Note, a representatividade bíblica para ganhar espaço na brincadeira. Vamos pegar um de seus contos mais primordiais: adão e eva. Ambos, os primeiros espécimes, os primeiros seres humanos a serem criados e viverem no paraíso. Eles eram felizes e tinham tudo o que precisavam. E assim continuaria, se não desobedecessem uma única condição: provar do fruto proibido – frequentemente ilustrado como a maçã.

Ryuk e a maçã (Arte por AdrianArt)

Curioso pensar que é a fruta preferida de Ryuk, né?

Continuando, a narração. Eis que Eva, instigada pelo espírito maligno ou de intenções duvidosas – representada por uma cobra, cof, mas porque não um shinigami? – instiga que a mulher se aposse do fruto. Não obstante, Eva também o oferece a Adão e como resultado ambos são expulsos do Jardim do Éden. O fruto em questão seria da chamada Árvore da Ciência do Bem e do Mal, e como consequência do pecado original eles também foram subjugados a condição de mortalidade.

Claro, há diferentes versões da história, mas vamos nos ater a tais elementos. A partir do momento que provaram do fruto, Adão e Eva selam o destino da humanidade e tomam consciência que há Bem e Mal. O fruto lhes trouxe um conhecimento que como consequência selou seus destinos. E eles estariam fadados a nunca retornar aos estado inicial de pura felicidade e satisfação que se encontravam.

(Pronto, acho que já deu de lição de teologia rs)

Não consigo deixar passar como tal remete à passagem em que Ryuk conta a Light que àqueles que possuem o caderno se tornam infelizes. A partir do momento que o protagonista adquire tal conhecimento, ele não pode retornar a seu estado inicial.

L e Light por Alex Malveda

Entretanto, com toda a ironia que se é permitida, ao obter tal conhecimento Light sente que pode restituir o limite do Bem e do Mal. Ouso dizer que ao invés de tomar consciência dele, seu ego foi sobrepujando a racionalidade e os limites deixaram de ser claros.

Mortalidade

A partir do momento que consomem o fruto passam a ser mortais, a condição de finitude sendo inerente ao homem e quem a controla é o divino. Eis que, quando Light se vê em posse do Death Note, podendo controlar e manipular a finitude, mais e mais ele se vê em pé de igualdade com um deus. Ao contrário da consciência que é adquirida por Adão e Eva, os limites vão se perdendo em virtude do aparecimento de Kira – a personificação dos ideais deturpados de Bem e Mal concebidos por Light.

L por vezes menciona que foi uma infelicidade Kira ter adquirido esse poder e mesmo o pai de Light concorda. Um dos motivos seria o seu poder assustador, que mesmo um simples e inocente ato como escrever um nome, pode tomar proporções catastróficas. E daí em diante a história que já conhecemos. E daí também a afirmação que o Death Note nunca deveria ter existido ou caído em mãos humanas. Afinal, não cabe a outro humano decidir o destino de seu semelhante. Todos deveriam tem uma posição de livre arbítrio igual – a finitude sendo uma das condições que nos faz humanos.

A figura do Trickster em Death Note

Nesse sentido, interessante pensar em Ryuk como o Trickster, o trapaceiro. Trapaceiro, pois não segue as mesmas regras. Pelo contrário, o trickster é a divindade que passa por cima delas. Porém, qualificações como ‘bem’ ou ‘mal’ aqui não cabem. Ambas são valores humanos e supostamente não servem para não-humanos. Pensar no trickster como mal seria o mesmo que desconsiderar sua importância. Por vezes, o trickster pode parecer mal-intencionado, mas também pode gerar efeitos positivos. Acredito que aí vai do ponto de vista de cada um.

Ryuk como a perfeita representação do trickster que é não tem intenção de fazer bem ou mal a ninguém. Não está do lado de ninguém, seja a favor ou contra. O jeito sarrista tem em muito um quê de infantil, muito semelhante à uma brincadeira sem limites. Só que nesse caso o limite é fatal e fica à mercê de um humano.

Arte por schneekatze

Gosto de pensar no trickster como aquele que gosta de causar, colocar lenha na fogueira e tenta extrair o máximo de entretenimento que uma situação pode gerar. Em Death Note, esse entretenimento tem um quê macabro e sangrento. Entretanto, ainda assim acredito que lições mais que valiosas podem ser tiradas da história. Ou seja, para o bem ou para o mal, Ryuk desempenhou com maestria seu papel como trickster. Além de ser super fofinho e fazer pontuações cômicas com suas falas.

E aí? O que achou do nosso texto? Conta pra gente suas teorias também ;]

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Megu

Pessoinha feliz que as vezes está de mal humor, mas é um doce com os outros. (Educação em primeiro lugar, claro u-u) É um tanto atrapalhada e azarada – “um tanto” = multiplique a porção que você pensou por 100, é mais ou menos isso. Nem sarcástica. Também nem é irônica. Em suma, um amor de ser humano.