“Tudo por amor” – Sinceramente, isso sempre foi algo que me incomodou. Aliás, como esse “por amor” com frequência aparece após o verbo ‘fazer’ conjugado: Fulano fez aquilo por amor, Cicrana faz aquilo por amor e assim sucessivamente. No geral, essa é uma expressão, ou mesmo, pensamento mais comum do que se imagina. Como se amor fosse algo autoexplicativo. Como se fosse a resposta ou uma desculpa válida. (Atenção: aqui estarei fazendo uma crítica de forma geral e aspectos negativos, apaixonados e amantes, por favor não se sintam atacados.)

TEXTOS DE APOIO

BMQMNQ #0 – Kuzu no Honkai vs Velvet Kiss | Solidão
BMQMNQ #1 – Kuzu no Honkai vs Velvet Kiss | Fragilidade dos Laços Humanos
Velvet Kiss | Primeiro Gole
Kuzu no Honkai (Scum’s Wish) – Anime | Review

Quero chamar atenção a tal aspecto pois, pelo pouco que já assisti de Kuzu no Honkai, vi que vai ter um quê disso. Amor como justificativa para atos. Ou, no caso, a falta/amor não-correspondido. Mas, antes de entrar no mérito do anime e da história, queria fazer uma pequena reflexão antes.

Apreciação pelo sofrimento

Já notaram como na cultura oriental há uma apreciação pelo sofrimento? Digo, eles têm muito forte um culto à “beleza da dor”, como se para atingir uma felicidade verdadeira o indivíduo deve se esforçar e superar obstáculos. (Nesse sentido, acho que poderíamos aprender um pouco com eles, né? rs Opinião pessoal.) Tal percepção – quase admiração – é frequentemente transportada para os mangás. Não vou analisar o porquê desse fato, apenas admitirei que é algo cultural e recorrente. Como estamos tratando de duas histórias de romance, pegarei os shoujos que servem como um exemplo bem ilustrativo.

Quem nunca viu a mocinha que possui algum tipo de dificuldade e precisa superar? Muitas vezes, claro, ou com a ajuda do mocinho ou “como prêmio” ficando com ele. E eis, que quando finalmente ficam juntos… Tem picuinha de novo. É (quase) sempre assim. A vida nunca é simples. Porém, porque tanto ênfase no drama? No sofrimento? Na superação? E…

Hanabi em Kuzu no Honkai (Imagem Divulgação)

Porque na maioria dos casos é tudo por amor?

Admito que já fui grande amante de shoujos, tanto que hoje em dia tenho certa aversão à eles. Sempre tão fofos, tão meigos… Enfeitando um enredo por vezes tão cruel. Suavizando e simplificando questões que de simples nada têm. Ok, tudo bem. Dou um desconto porque é uma história. Entretanto… E quando as pessoas começam a criar expectativas que seja assim na vida real? (Não é atoa que o Japão tá em crise de romance… Também, ter shoujo e erogame como padrão é ph*oda :v Ok. Desculpa o comentário cruel e chulo.)

Sabe, sonhar com contos de fadas é saudável. Fantasia pode sim fazer parte da realidade. Até porque, tudo é tão mais mágico com ela. Porém, para não fugir tanto do ponto, o que me incomoda em shoujos é como frequentemente o romance passa a ser o centro da vida da protagonista. Tudo gira em torno de amor. A fulana muda pelo amor dela, melhora pelo amor, cozinha pelo amor, aprende a voar pelo amor, persegue o amor dela – aiai, quem aí já leu Killing Stalking, esse sim é um romance de matar (e yaoi, amo <3 Entendedores, cof, fujoshis e fundashis entenderão rs).

Enfim, acho que vocês entenderam o ponto. Claro, não serei generalista e falar que todos são assim. Todos não são, apenas a maioria. Eis que… shoujo, que é o público a qual o mangá ou anime é direcionado, passou a ser entendido como sinônimo de romance, amor.

Maaas, não vou entrar no mérito de classificações e convenções. Agora, vou bater na mesma tecla, sendo curta e grossa. Tudo não é por amor. Não pode ser.

“- Ai, mas que recalque. Claro que pode.”, você refuta.

Tudo bem, tudo bem. Até pode, mas garanto que não é saudável. Da mesma forma que “cara metade”, não deve subentender que você precisa de outro indivíduo para formar um todo. E eis a questão que tanto me incomoda em shoujos. O romance é colocado como o principal, o eixo de gravidade da vida da protagonista. Tudo gira em torno disso. Tudo por um romance.

Até que ponto isso vale a pena? Até que ponto são coisas necessárias? Essas são duas questões que me inquietam até hoje. No entanto, lembro de já ter lido uma frase mais ou menos assim em um desses mesmos shoujos:

“Ambos se amavam, mas… Não era suficiente. Só amor não era suficiente.”

E nisso, fiquei feliz. Feliz por ver que alguém tinha entendido o recado. Que apenas amor não é tudo. E que nem tudo deve ser por amor.

Dessa vez, vou deixar bem em aberto mesmo, pois de muito que falei ainda não tenho conclusões. E não acho que tenha uma definitiva. Muito do que me baseio (ou tento) é em relação se algo faz bem ou é minimamente saudável para alguém. Eis que varia de sujeito para sujeito. De amor para amor. Afinal, há diferentes tipos de amores.

No próximo texto, vamos refletir um pouquinho mais sobre isso.

Quinta que vem: “O amor é tóxico?”

E eu ficaria extremamente feliz se vocês se juntassem à discussão. Por amor, vai? <3

Até lá, dears!